O que foi o Torneio de Arcos de Valdevez?

O Torneio de Arcos de Valdevez, ou Recontro de Valdevez, é um dos momentos marcantes no processo de independência e de fundação de Portugal. É também um acontecimento único na história de Portugal pois a batalha terá ficado decidida mesmo antes de acontecer.

Este episódio marcante da história de Portugal acontece em 1140, no Vale do Rio Vez, em Arcos de Valdevez.

O que é um Recontro?

Antes mais é importante esclarecer que um Recontro ou Bafordo é uma espécie de torneio medieval onde cavaleiros de ambas as partes envolvidas mostram as sua destreza lutando entre si, e cujo resultado da contenda era normalmente aceite por ambas as partes, evitando uma batalha campal com perdas para ambos os lados.

Torneio de Arcos de Valdevez

Após a vitória na lendária batalha de Ourique (contra os Mouros), Afonso Henriques decide invadir a Galiza rompendo assim a chamada “paz da Tui” (tratado de paz entre Afonso Henriques de Portugal e seu Primo Afonso VII de Castela e Leão).

Os portucalenses rapidamente conquistaram alguns castelos na Galiza que estavam sob a alçada de Castela. Afonso VII terá ficado furioso e decidiu reunir grande parte do seu exército e invadir Portugal, conquistando todos os castelos em seu caminho, descendo a serra do Soajo em direcção a Valdevez.

Afonso Henriques decide ir ao encontro de seu primo e os dois exércitos encontram-se no vale do Rio Vez. Não existem grandes informações sobre os exércitos, mas é crível que o exército leonês fosse bastante maior que o portucalense.

Nesta fase existem informações contraditórias nas fontes que consultamos. Em alguns lugares é dado a entender que o recontro terá surgido quase que naturalmente, com alguns soldados a pegarem-se começarem a lutar entre si, enquanto que noutros parece ter sido de facto combinado e organizado de forma a evitar-se um desnecessário banho de sangue.

Recontro de Arcos de Valdevez
Torneio de Arcos de Valdevez

No Recontro de Valvedez, os melhores cavaleiros Portugueses levaram clara vantagem sobre os leoneses. Assim, e de acordo com o código dos cavaleiros medievais, vários leoneses ficaram detidos deixando Afonso VII numa posição mais vulnerável. Por outro lado, os próprios Portugueses não tinham interesse em prolongar a batalha e por isso tentaram chegar a um compromisso.

Temos de lembrar que tanto Afonso VII como Afonso Henriques tinham um inimigo comum a sul. Na prática, parece que as suas discórdias não seriam tão grandes assim. Mais do que evitar a independência de Portugal, Afonso VII queria sobretudo evitar qualquer hipótese de crescimento de Portugal para norte, pois considerava Galiza parte indispensável de seu império.

E assim aconteceu, os primos Afonso Henriques de Portugal e Afonso VII chegaram a um acordo, cada um restituindo os castelos conquistados ao outro.

Historia do Torneio de Arcos de Valdevez
Paço da Giela em Arcos de Valdevez, onde se pode encontrar descrita a história do torneio

Consequências do Recontro de Valdevez

Após a vitória dos cavaleiros Portucalenses, Afonso Henriques aproveita as boas graças da igreja e por intermédio Dom João Peculiar, o Arcebispo de Braga, pede que o Papa Inocêncio aceite vassalagem e o pagamento de um censo de quatro onças de ouro por ano. O Arcebispo de Braga, fez também com que o Cardeal Guido de Vico presenciasse e mediasse a reunião e conciliação entre Afonso VII e Afonso Henriques para negociação do tratado de Zamora em 1143.

Neste tratado, Afonso VII reconhece a soberania Portuguesa, aceitando que o Condado Portucalense passasse a ser Reino, e que Afonso Henriques seria o seu Rei.

A maioria dos autores e historiadores consideram o torneio de Arcos de Valdevez como um dos passos marcantes para independência de Portugal, que se viria a consumar em 1143 através do tratado de Zamora e posteriormente da bula papal em 1179.

Tudo sobre Torneio de Arcos de Valdevez
Estátua de Afonso Henriques (primeiro rei de Portugal), em Guimarães

Crónica dos Godos

Um dos poucos documentos que relatam este episódio e que sobreviveram até hoje é a Crónica dos Godos. Deixamos em baixo a interessante transcrição da parte onde se fala do Bufúrdio de Valdevez.

Ao mesmo tempo o Imperador D. Afonso, filho do conde Raimundo e da rainha D. Urraca, filha do grande Imperador D. Afonso, tendo reunido todo o seu exército de Castela e Galiza, quis entrar no reino de Portugal e vieram até um lugar que se chama Valdevez; mas o rei D. Afonso foi ao seu encontro com o seu exército e ocupou o caminho por onde aquele queria vir, e armou as suas tendas, uns de uma parte e outros de outra. E como alguém viesse do lado do Imperador para provocar uma escaramuça que os populares chamam Bufúrdio, imediatamente alguns saíam do lado do rei de Portugal, indo ao encontro deles e, com eles escaramuçando.

Estes prenderam Fernando Furtado, irmão do imperador e o cônsul Pôncio de Cabreira, Vermudo Peres e Varela, filho de Fernando Joanes, irmão de Paio Curvo, e Rodrigo Fernandes, pai de Fernando Rodrigo, e Martinho Cabra, sobrinho do cônsul D. Pôncio, e outros muitos que com eles vinham. Por isso vendo o imperador que tudo corria próspero ao rei de Portugal e que uma boa estrela o guiava e que Deus o ajudava e que a si tudo lhe corria ao contrário, e que, se quisesse continuar a luta, maiores seriam os seus prejuízos, mandou enviados à presença do arcebispo de Braga, D. João, e a outros homens bons e pediram-lhes que viessem ter com o rei de Portugal para que fizesse e firmasse uma boa paz e para sempre. Assim aconteceu e chegaram a um acordo. Efectivamente numa tenda tanto o Imperador como o rei de Portugal se beijaram mutuamente, comeram e beberam vinho, e falaram a sós secretamente e, assim, cada um deles retomou a sua paz.

Crónica dos Godos, Era de 1178 (Tradução do Professor Albino de Faria)
História do nascimento de Portugal - Torneio de Arcos de Valdevez
Azulejos da estação de S. Bento no Porto que representam o torneio de Arcos de Valdevez

Lenda do Santo Lenho

E como gostamos sempre uma boa lenda, temos também de partilhar a lenda do Santo Lenho, que está intimamente ligada ao Recontro de Valdevez. Segundo esta lenda, nesta batalha terá sido encontrada uma relíquia sagrada, o Santo Lenho, que segundo a tradição católica, será um pedaço da cruz onde Jesus Cristo foi crucificado.

Esta relíquia sagrada está guardado na igreja matriz de Grade, num sacrário fechado com duas portas e sete chaves diferentes. Este é venerado na quinta-feira de Espiga, 40 dias após a Páscoa.

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