Há festas populares em todo o país, mas poucas são capazes de transformar uma vila inteira como as Festas do Povo de Campo Maior. Durante vários dias, dezenas de ruas ficam completamente cobertas por flores de papel, criando uma paisagem colorida e quase surreal.
O mais curioso é que esta enorme transformação não é organizada por uma empresa de eventos, nem acontece todos os anos por estar marcada no calendário. São os habitantes de Campo Maior que decidem quando querem voltar a fazer a festa e que, durante meses, trabalham na preparação das flores, dos desenhos e de toda a decoração das suas ruas.
E há muito mais por trás das flores do que aquilo que vemos à primeira vista. Há técnicas transmitidas entre gerações, trabalho comunitário, criatividade, competição entre ruas e uma forte relação entre a festa e a identidade da própria vila.
É por tudo isto que as Festas do Povo foram reconhecidas pela UNESCO como Património Cultural Imaterial da Humanidade em 2021.

O que são as Festas do Povo de Campo Maior?
As Festas do Povo consistem na decoração das ruas de Campo Maior com flores de papel e outros elementos decorativos feitos à mão. Cada rua prepara a sua própria decoração e, durante alguns dias, transforma-se completamente.
Não existe uma decoração geral para toda a vila. Cada rua tem os seus próprios desenhos, cores, elementos e temas, que variam de ano para ano.
Outra particularidade é que as Festas acontecem “quando o povo quer”. Não têm uma periodicidade definida e a decisão de as realizar parte da própria população.

“Quando o povo quer”: como se organizam as Festas
Cada rua organiza a sua participação através de uma comissão, que coordena o trabalho e prepara a decoração. Tudo começa muitos meses antes, quando são pensados os desenhos, escolhidas as cores e distribuídas as tarefas. Uma das coisas mais engraçadas das Festas do Povo é perceber que não há duas ruas iguais
O trabalho envolve pessoas de várias idades. Há quem faça flores, quem prepare estruturas e quem cuide de outras partes da decoração. Durante meses, cada rua guarda o segredo daquilo que está a preparar, até chegar o momento da enramação.
Na edição de 2026, participaram 93 ruas e estiveram envolvidos mais de 4.000 voluntários.
Para ajudar a conhecer toda a festa, existe ainda um passaporte das Festas do Povo, no qual podemos recolher um selo em cada uma das ruas participantes. É uma ideia simples, mas muito bem conseguida: transforma a visita numa espécie de caça ao tesouro e incentiva-nos a percorrer Campo Maior de uma ponta à outra.
E é uma boa coisa, porque depois de vermos algumas ruas já estamos com a sensação de que percebemos a dimensão da festa. Até descobrirmos mais dez.

História das Festas do Povo de Campo Maior
As origens das Festas do Povo remontam ao final do século XIX e estão ligadas às celebrações em honra de São João Baptista. Existem referências a festas realizadas na década de 1890, embora não seja possível determinar com total precisão quando começaram as atuais Festas do Povo.
Nessa altura, o programa era bastante diferente do que encontramos hoje, com procissões, música, arraiais, danças e outros festejos. Há também referências à utilização de flores de papel na decoração das ruas. A decoração foi ganhando importância ao longo do tempo, até se tornar o elemento que hoje mais distingue as Festas.
Ao longo da sua história, as festas tiveram diferentes designações, sendo também conhecidas como Festas dos Artistas e Festas das Flores. A partir de 1922, passaram a ser oficialmente designadas como Festas do Povo e a tradição continuou a evoluir ao longo das décadas, afastando-se progressivamente das celebrações em honra de São João Baptista e dando origem às festas que conhecemos hoje.
Houve períodos em que as festas aconteceram com alguma regularidade e outros em que passaram muitos anos sem qualquer edição. Depois da edição de 2015, seguiu-se um intervalo particularmente longo. Em 2026, onze anos depois, Campo Maior voltou finalmente a encher-se de flores.

Meses de trabalho para uma festa que dura poucos dias
São precisos meses de trabalho para produzir as flores de papel de Campo Maior que depois cobrem as ruas. Em 2026, foram utilizadas cerca de 50 toneladas de papel.
Mas o número de flores talvez nem seja o mais impressionante. Basta olhar com atenção para perceber que não se trata simplesmente de fazer flores aos milhares.
Se tivesse de escolher uma, ficava com os girassóis. A forma como são construídos, pétala a pétala, é impressionante. Mas talvez sejam as rosas que mais mostram a atenção ao detalhe: umas mais abertas, outras mais fechadas, em diferentes cores e até com pétalas de várias tonalidades.
As dobras, os cortes e a forma de montar cada flor variam, e o resultado revela uma técnica que não se aprende em poucos dias. Por trás de cada flor existe uma técnica e um conhecimento que foram sendo aperfeiçoados ao longo dos anos.

A enramação: a noite em que Campo Maior se transforma
Depois de meses a preparar flores e a trabalhar nas decorações, chega finalmente a enramação das Festas do Povo, quando são finalmente colocadas nas ruas para criar a decoração das Festas do Povo.
É durante a noite que as estruturas preparadas pelas diferentes ruas são montadas e cobertas com as flores e restantes elementos decorativos. O que esteve escondido durante meses ganha finalmente forma e, na manhã seguinte, Campo Maior aparece completamente transformado.
É difícil imaginar a dimensão das Festas sem ver as ruas assim. Os edifícios quase desaparecem por baixo das flores e aquilo que durante meses existia apenas em desenhos, caixas e casas particulares passa a ocupar todo o espaço das ruas.
Fiquei com pena de não ter conseguido uma fotografia aérea das ruas. É provavelmente o único ângulo capaz de mostrar, de uma só vez, a dimensão de tudo aquilo.

Muito mais do que flores: a cultura por trás das Festas
Talvez seja difícil perceber a dimensão comunitária das Festas apenas através das fotografias. Durante a visita, porém, é impossível não reparar nos habitantes de Campo Maior a participar.
Há famílias a jantar na rua, pessoas a vender produtos à porta de casa e moradores orgulhosos a mostrar aquilo que fizeram. É uma festa feita pelos campomaiorenses, mas que, durante alguns dias, abre as portas a quem a quiser visitar.
Não parece uma festa criada para turistas e depois aberta ao público. Primeiro, pertence a quem a faz. Depois, durante alguns dias, Campo Maior abre as portas e convida o resto do país a conhecê-la. E talvez seja esta uma das coisas que mais contribuem para a identidade tão própria das Festas.

Além disso, há outras tradições associadas à festa, como as saias de Campo Maior. É uma dança popular do Alto Alentejo, cantada e dançada ao som de pandeiretas e castanholas. Tivemos pena de não conseguir assistir a esta atuação.
Há também uma zona alimentar com vários espaços de comida, embora tenha sentido falta de uma presença maior da gastronomia alentejana. Encontram-se ainda vários espaços de animação e iniciativas de empresas locais. A Delta Cafés, naturalmente, está muito presente.
A zona da Delta tinha mini-jogos, venda e oferta de produtos, uma espécie de festa dentro da festa. Destoa um pouco do ambiente das ruas, mas funciona, e achei giro ver aquela ligação tão evidente com Campo Maior.
E há uma razão para isso. A relação entre a Delta, Rui Nabeiro e Campo Maior é difícil de separar da identidade da própria vila. A edição de 2026 teve ainda um significado especial por ser a primeira depois da morte de Rui Nabeiro, fundador da Delta Cafés e uma das figuras mais importantes da história recente de Campo Maior. A sua ligação às Festas e à comunidade foi também lembrada durante esta edição.

Porque são Património Cultural Imaterial da UNESCO?
As Festas do Povo foram inscritas na Lista Representativa do Património Cultural Imaterial da Humanidade da UNESCO em 2021. Mas o que foi reconhecido não foram simplesmente as ruas cobertas de flores.
O património está nos conhecimentos e técnicas usados para fazer as flores e decorar as ruas, na organização das comissões, na participação da comunidade e na transmissão destes saberes. A própria UNESCO destaca o papel das comissões de rua e a decisão da comunidade sobre a realização das Festas.
É precisamente por isso que se fala em património imaterial. As flores são temporárias e desaparecem no final da festa. O conhecimento para as fazer, a forma de organizar as ruas e toda a tradição que permite que as Festas voltem a acontecer continuam vivos.
Sem as pessoas de Campo Maior, não existiriam as flores, mas também não existiriam as próprias Festas.

Uma festa efémera: meses para criar, dias para viver
Há algo de curioso nas Festas do Povo: depois de meses de trabalho e milhares de flores feitas à mão, tudo dura apenas alguns dias.
No final, as ruas são desmontadas e grande parte das flores deixa de existir. É talvez a parte mais estranha de tudo isto. Depois de vermos aquelas ruas completamente cobertas, é difícil imaginar que, pouco tempo depois, voltarão a ser ruas normais.
Fiquei também a pensar no que acontece a tudo aquilo depois. Com cerca de 50 toneladas de papel utilizadas nesta edição, é uma quantidade enorme de trabalho e de material que desaparece em poucos dias.
É verdade que a tradição não desaparece quando acabam as Festas. A Casa das Flores, em Campo Maior, mantém durante todo o ano a história e o saber-fazer das Festas acessíveis aos visitantes, e existem também outras iniciativas que procuram manter as flores e esta tradição presentes entre edições.
Ainda assim, fiquei a pensar se não seria interessante aproveitar também o próprio dia da desmontagem. Transformá-lo num pequeno evento, vender ou oferecer algumas flores e talvez convidar as pessoas a participar nesse último capítulo das Festas. Não sei até que ponto seria viável, mas parece-me uma forma gira de prolongar a experiência e, sobretudo, de dar às flores uma segunda vida.
Talvez esta natureza efémera também faça parte do encanto. As Festas acabam, as flores desaparecem e, quando o povo quiser voltar a fazê-las, tudo começa outra vez.

Conclusão
As Festas do Povo são fáceis de admirar pela dimensão e pela beleza das ruas, mas, quanto mais atenção prestamos, mais percebemos que o verdadeiro encanto está nos detalhes.
Está nas diferenças entre cada rua, nas flores feitas uma a uma, no conhecimento necessário para as criar e no orgulho de quem passa meses a preparar tudo isto.
Antes de visitar Campo Maior, pensei que seria apenas mais uma grande festa popular. Saí de lá a perceber porque é que as Festas do Povo são tão especiais. Não é apenas aquilo que vemos nas ruas. É tudo o que está por trás delas.

Guarde para mais tarde se lembrar!

